olho para a sua face carregada de mistério
como quem assiste ao fenómeno imprevisível do amor
a vaga sensação de calor que me percorre
enche-me de coragem
digo disparates como quem diz certezas
sinto o vento deslizar-lhe sobre a pele e observo-a como se não houvesse notado nada mantenho-me em silêncio
ela pergunta: o que tens
respondo
nada
mas aquele nada é um tudo que me envolve em mantos de suavidade
e sinto-me com a presença do universo na minha alma
calo-me
e sob o silêncio mais um sol se põe
levanto então meus olhos de sua pele tingida pelo sol
e digo-lhe tudo o que se pode dizer
observamo-nos em silêncio e sem uma palavra proferimos todos os discursos
anoitece
e na noite
recôndito em meu quarto
peço-lhe um beijo e espero por uma resposta ansioso pelo amanhã
6 de Abr de 2009
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21 comments:
hummm...
já vi que a falta de tempo se deve a "valores + altos" ;)
que sejas bafejado por bons ventos
Uma dica: beijo não pede-se. ROUBA-SE!
Bjnhos pra ti (roubado!rs)
simplesmente maravilhoso! já para não dizer maravilhástico :)
é um poema, revelará algo sobre a minha realidade ou será um produto de minha fantasia? ;)
Nota: não se roubam beijos consentidos...no consentimento há um jogo de forças e desejos...
Meu caro estas suas ausências deixam a blogosfera mais pobre…
Cá está, ninguém pede um beijo – rouba-se, mas não confundamos o roubo de um beijo que nos pertence, com o roubo de muitos beijos depositados numa conta nalgum paraíso fiscal (que por acaso é moda por terras lusas):)
Um abraço.
Acho curiosa essa ideia dos beijos que se "roubam"...há anos que ouço essa ideia e penso sempre que há qualquer coisa de contraditória aí...dá uma sensação de criminalidade de obscuridade, quando no amor também se constrói , o amor também se elabora se reaviva e sobretudo se vive; se só roubarmos beijos, se, porventura, não jogarmos com os beijos que alguém nos dá ou nos recusa não estaremos a perder um certo jogo que fascina?...será por isso que muitos amores acabam violentamente?
"é um poema, revelará algo sobre a minha realidade ou será um produto de minha fantasia?"
não importa. é isso que fascina nas palavras, seja poesia ou prosa, na poesia particularmente, na literatura em geral. quanto do autor está nas suas palavras, quão real é a sua ficção, ou por outra, quanto de fantasia à na sua vida?...
quanto aos beijos, há os de todos os tipos. há os beijos roubados, num jogo de forças, como se disse. há também a entrega. beija-se de várias maneiras e servem todos os gostos. nunca são iguais mesmo que os lábios sejam sempre os mesmos.
(e mais não digo. prefiro falar de literatura)
p.s.: como disse o "zé", isto fica mais pobre sem ti. é bom ler-te :)
*errata: quanto de fantasia HÁ na sua vida?
ai a hipercorrecção...
uma pequena autocorrecção: há beijos que se roubam inclusive num consentimento...embora não ache fundamental que se roube um beijo...um beijo é uma dádiva no sentido etimológico da palavra e há furtos que são violentos...
E.O. eis a questão! e uma bela questão de teoria da literatura ;)
sou dos que afirmam - aceitando ainda assim que minha posição não seja a correcta - que toda a ficção é de um modo ou outro autobiográfica, o autor por mais ficcional que seja reporta-se sempre ao seu ponto de vista enquanto criador (alusão - propositada - aqui a duas obras sobejamente conhecidas na literatura) é sempre um ponto em que se entrega um "olhar". Apesar das inúmeras teorias e afirmações que digam o contrário, sobretudo as que defendem a "alteridade" do criador mas pergunto eu, se essa "alteridade" sai do autor não é propriamente uma característica desse mesmo autor? Ainda que essa alteridade ganhe "vida própria" como eu também defendo.
frequentemente quando escrevo algo que sinto estar completo sinto que esse texto deixa de ser meu e passa a ter uma autonomia. E com bastante regularidade releio textos meus que não parecem ter sido escritos por mim mas foram-no, e é o caso do que aqui está. Não tanto pelo que está escrito mas por me ter distanciado dele e por me ter "libertado" dele.
E é uma estranha sensação.
* "que digam o contrário"?! "Mê gramática está toda desarticulada" ;oP o que até se explica com a imperiosa necessidade de sono que vou já cumprir.
* "que dizem o contrário".
Havia um modo mais harmonioso de construir este texto de forma a clarificar alguns pontos mas hoje deixo-o mesmo na obscuridade que também me caracteriza.
beijinhos!
de boa vontade!
:)))
ora bolas, desta vez estamos em concordância!! ;p
Pois é; é que concordo completamente com a tua teoria - com excepção para "quando escrevo algo que sinto estar completo", pois julgo que o VERDADEIRO texto literário nunca está completo, pois, depois de ganhar autonomia e se "libertar" do autor,faz-se e refaz-se a cada leitura, completa-se a cada interpretação, a cada crítica. Mas, voltando ao que estava a ser dito literatura=ficção(ou não), eu creio que no processo de escrita, biográfica ou não, verifica-se sempre um processo de desdobramento do eu, de modo que está sempre presente muito do autor, da sua visão, do seu contexto histórico e social, do seu "olhar" como tu tão bem afirmas.
Ui... perderia horas a falar disto... mas "duty calls"...
Não te deixo com beijos mas deixo-te com um abraço amigo.
eu acho que os beijos podem ser roubados ...e pedidos...desde que neles se possam viver vidas inteiras..
obrigada pela visita
beijos?... são bons! de toda e qualquer a maneira... menos os de judas, tá claro!...;)
ai henrik, tu sabes que eu sei que tu sabes... que o amor e a escrita, sobretudo a escrita por amor, mas também o amor pela escrita, nos levam longe, bem longe, de regresso a casa...;)
por outro lado, meu amigo, imagina tu que ando a pensar publicar lá por casa mais uns belos duns trabalhos...;) mas só que desta feita com a tua própria imagem... pode ser?... olha que quem cala consente...
vá, dá-me e toma lá este beijo... que pode realmente ser virtual, mas que virtualmente é bem real... acrescento que se trata aqui de um beijo casto, castíssimo, arcanjo...;) e que, claro, é para si também...
Se calhar até discordamos E.O. é que um "verdadeiro" texto literário para ser interpretado autonomamente tem que estar completo. A questão será que tipo de completude falo eu e falas tu?
Em primeiro lugar, não confundir o que é um texto feito (mesmo que venha a ser refeito) com a interpretação sempre contínua que se pode fazer dele.
Quantas vezes não li eu o mesmo texto e dele depreendi diferentes coisas? Significa isso que o texto se alterou? francamente não (objectivamente). Agora a minha percepção dele alterou-se por completo porém isso são coisas distintas E.O.
Um autor que não dê a autonomia ao seu texto não se livra dele, acredita. ;)
Teresa eu concordo em absoluto contigo.
S&L és livre de o fazer minha cara amiga. :)
Henrik, concordamos (como na maioria das vezes). Já vi que a língua entre nós constitui uma forte barreira pois por demais vezes pensamos a mesma coisa mas as palavras colocam-nos em trincheiras de lados opostos. parece-me que é mais uma vez o caso. Quando eu digo que um texto nunca está completo, digo-o no sentido que dás quando afirmas que "um texto feito (mesmo que venha a ser refeito) com a interpretação sempre contínua que se pode fazer dele.
Quantas vezes não li eu o mesmo texto e dele depreendi diferentes coisas?"
No meu entender e de forma extremamente subjectiva, um texto completa-se com a soma de leituras, com a soma de interpretações e estas nunca são finitas, de modo que o texto está permanentemente em construção. É como tu olhares pela janela e dares conta de todos os pormenores que estão lá fora (nunca dás, por mais exaustiva que seja a tua análise) e chega sempre alguém novo que se apercebe de um pormenor que te escapou e, porque o dia está cinzento, vês as coisas de uma forma diferente de ontem, quando o sol brilhava intensamente. mudou o mundo (mundou o texto)? não; completou-se mais um pouco. Será que ficou mais claro? Talvez não...
"Um autor que não dê a autonomia ao seu texto não se livra dele, acredita." - O autor liberta-se, dá autonomia ao texto para crescer e se desenvolver "por si", assim como uma mãe por fim aceita o corte do cordão umbilical e "liberta" os seus filhos para crescerem autonomamente. mas ninguém cresce sozinho. Somos feitos, completamo-nos, desenvolvemo-nos através de tudo o que nos rodeia (pessoas, vivências, etc, etc, etc).´Mas nunca somos completos. O mesmo acontece com os textos, já que neles há mão humana.
p.S.: Quanto ao poema de cima... vou reflectir sobre a lama. Ainda não me sinto capaz de lhe fazer jus com um comentário. Mas gostei e disse-me muito.
Eu compreendo o que estás a afirmar, e bem, mas eu falo do texto objectivamente e em duas situações em que me citas: a primeira refere-se à autonomia do texto, objectivamente, e por mais que me digam o contrário é um facto que o texto escrito é sempre o mesmo porém o leitor não o é (e no leitor incluo já também o escritor após completar o seu texto). Em certo sentido e indo de encontro ao que dizes um texto nunca se completa precisamente por essa razão que dizes, a leitura é contínua, psicológica, contextual, e portanto existe efectivamente uma certa infinitude no texto. Mas não era nesse sentido que eu ia quando escrevia sobre a autonomia do texto mas antes da relação que um escritor tem com o seu texto até ao ponto em que sente que ele deixa de ser seu e passa a ser uma partilha, agrada-me essa ideia de que falas de um texto ser comungado e reescrito pela interpretação do leitor, pois eu adoro essa dimensão orgânica do texto. Mas, e volto a acentuar isso, um texto está escrito na sua completude quando se apresenta ao leitor apenas não está - nem de longe nem de perto - totalmente lido (latu sensu), não foi esgotado na leitura mas está completo em termos de escrita e é a isso que me refiro. Naturalmente que aí falo em estrito senso do texto e objectivamente das palavras que o compõem, da sua estrutura, e do modo como o autor o pensou e unicamente nesse sentido.
Eu entendi a tua leitura e a ideia que permitias transmitir. Quis apenas esclarecer a minha, pois, como vês, a língua separa-nos embora muitas vezes comunguemos das mesmas interpretações. ;)
Quis também - e talvez acima de tudo - realçar a tal perspectiva de incompletude de leituras de uma obra, que tanto me fascina em tudo o que leio, exactamente porque, como tu, também eu "adoro essa dimensão orgânica do texto". [Aparte: a propósito da "incompletude", saiu um belíssimo livro com título homólogo, publicado pela Gradiva, que aconselho a qualquer pessoa, pois apresenta teorias e teoremas da matemática de forma bastante interessante - sei-o porque ajudei na revisão da tradução].
P.S.: As usual on fridays: partilha de um copo de vinho branco?
P.S.2. já vou lá acima.
Gosto da tua veia poética, a melhorar, mas muito boa. :)
encontro-te bem, isso faz-me feliz. um beijo
todos confrontamos, e balançamos entre o que parece ser correcto e o que pode ferir cá dentro. É como o horizonte tá sempre ao longe, mas não quer dizer que se esqueça.
bons passos menino Henrique :)
bejokas
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