Lamentável. Lamentável só agora, bastante mais de três meses depois, ter lido esta afirmação enquanto folheava a revista «Os Meus Livros» de Janeiro que, a crer na seriedade da revista, supostamente terá dito Pedro Correia no Diário de Notícias de 29-11-2008: «não é fácil gostar deste autor [José Saramago] profundamente amargo, que tem uma concepção desencantada da natureza humana e demasiadas vezes reduz as personagens a títeres, desenvolvidas apenas para dar credibilidade a uma tese».
Vamos por partes. O Leninismo-Estalinismo de Saramago também não me agrada, embora ainda ache Marx bastante válido para a análise da contemporaneidade, todavia há aqui, segundo me parece, erros dir-se-iam básicos de argumentação. Em primeiro lugar, não gostar de Saramago é legítimo quer seja por ser «profundamente amargo» ou por não se concordar com as suas teses ou por outra razão qualquer, é um critério de gosto pessoal e transmissível.
Porém, argumentar isso não é a mesma coisa que o rejeitar por ter «uma visão desencantada da natureza humana» pois isso já é uma afirmação que entra no domínio da Filosofia. As concepções de Saramago são desencantadas sem dúvida mas altamente sustentadas por uma tese filosófica que encara um duplo movimento dessa dita «natureza», o aparecimento da esperança por um lado e o manifesto fundo negativo que os humanos continuam a propagar. Negar as atrocidades que vemos todos os dias ora veiculadas por jornais (atendendo também às mais recentes tecnologias como o youtube e sucedâneos que permitem uma visualização quase simultânea dos acontecimentos) ou testemunhadas in loco no dia-a-dia se não é um encantamento feérico perigoso então será profundamente autista.
Não gostar dessa visão desencantada de Saramago é argumentar uma coisa, afirmar que ele está errado por seguir essa tese já é outra coisa diferente.
No que me diz respeito, não tenho motivos particulares para considerar a natureza humana como algo nem de profundamente negativo ou positivo. Não creio num conceito abstracto e uno da humanidade e portanto não vejo a humanidade como um todo, isso seria ,em última análise, um engano fácil para castigar uns pelos erros de outros ou por sua vez aclamar outros por gestos de uns.
Para finalizar, muito me espanta que se afirme isto: «[Saramago] reduz as personagens a títeres, desenvolvidas apenas para dar credibilidade a uma tese». Pois bem, chama-se a isso Enredo e costuma haver numa coisa chamada Literatura. A Literatura é precisamente a redução das personagens, ou narradores, a títeres para credibilizar uma tese.
E essa tese tanto pode ser meramente metafórica, lúdica, mero entretenimento, exercício de estilo ou filosofia. Mas a base da literatura fundamenta-se precisamente numa organização de uma narrativa que visa veicular algo. E mesmo os exercícios literários fonéticos como o dadaísmo do início do século passado tinham como objectivo «dar credibilidade a uma tese».
Por isso não se entende bem a afirmação acima transcrita. Argumentação que teria sido muito mais eficaz e justa se tivesse sido em moldes parecidos: «não gosto de Saramago. Discordo das suas teses da sua concepção de humanidade e da forma como os seus livros a veiculam». Isso sim teria sido uma afirmação digna de registo quer eu concorde ou não. E intui-se que seria somente isso que se quereria afirmar.
Vamos por partes. O Leninismo-Estalinismo de Saramago também não me agrada, embora ainda ache Marx bastante válido para a análise da contemporaneidade, todavia há aqui, segundo me parece, erros dir-se-iam básicos de argumentação. Em primeiro lugar, não gostar de Saramago é legítimo quer seja por ser «profundamente amargo» ou por não se concordar com as suas teses ou por outra razão qualquer, é um critério de gosto pessoal e transmissível.
Porém, argumentar isso não é a mesma coisa que o rejeitar por ter «uma visão desencantada da natureza humana» pois isso já é uma afirmação que entra no domínio da Filosofia. As concepções de Saramago são desencantadas sem dúvida mas altamente sustentadas por uma tese filosófica que encara um duplo movimento dessa dita «natureza», o aparecimento da esperança por um lado e o manifesto fundo negativo que os humanos continuam a propagar. Negar as atrocidades que vemos todos os dias ora veiculadas por jornais (atendendo também às mais recentes tecnologias como o youtube e sucedâneos que permitem uma visualização quase simultânea dos acontecimentos) ou testemunhadas in loco no dia-a-dia se não é um encantamento feérico perigoso então será profundamente autista.
Não gostar dessa visão desencantada de Saramago é argumentar uma coisa, afirmar que ele está errado por seguir essa tese já é outra coisa diferente.
No que me diz respeito, não tenho motivos particulares para considerar a natureza humana como algo nem de profundamente negativo ou positivo. Não creio num conceito abstracto e uno da humanidade e portanto não vejo a humanidade como um todo, isso seria ,em última análise, um engano fácil para castigar uns pelos erros de outros ou por sua vez aclamar outros por gestos de uns.
Para finalizar, muito me espanta que se afirme isto: «[Saramago] reduz as personagens a títeres, desenvolvidas apenas para dar credibilidade a uma tese». Pois bem, chama-se a isso Enredo e costuma haver numa coisa chamada Literatura. A Literatura é precisamente a redução das personagens, ou narradores, a títeres para credibilizar uma tese.
E essa tese tanto pode ser meramente metafórica, lúdica, mero entretenimento, exercício de estilo ou filosofia. Mas a base da literatura fundamenta-se precisamente numa organização de uma narrativa que visa veicular algo. E mesmo os exercícios literários fonéticos como o dadaísmo do início do século passado tinham como objectivo «dar credibilidade a uma tese».
Por isso não se entende bem a afirmação acima transcrita. Argumentação que teria sido muito mais eficaz e justa se tivesse sido em moldes parecidos: «não gosto de Saramago. Discordo das suas teses da sua concepção de humanidade e da forma como os seus livros a veiculam». Isso sim teria sido uma afirmação digna de registo quer eu concorde ou não. E intui-se que seria somente isso que se quereria afirmar.
12 comments:
Concordo consigo 100%
Conheço inclusive um poema de Cesário Verde, onde o próprio afirma ser renegado pela crítica da sua época por não escrever novelas e romances. O mundo não é belo, não adianta disfarça-lo, assim a arte pode servir para nos alhear do sofrimento visto diariamente, criando um mundo belo e artístico, ou pode servir para nos retratar esse mesmo sofrimento.
Infelizmente nunca li o Saramago, burrice minha ou opção, mas quem é este jornalista para desmerece-lo, ainda por cima afirmando que o Saramago escreve só para dar credibilidade a uma teoria.
Do pouco que conheço sobre o escritor, a impressão que me fica é de ser integro, idealista e não me parece que escreva sem acreditar na sua mensagem, mas mesmo que escrevesse para suportar uma tese, qual era o problema?
Cumprimentos e bastante interessante a sua visão.
Henrik
Gostei da síntese a que a análise do comentário levou ....
:)))
Já lí O Mito de Sísifo. Você me indica algo de Saramago? Pra início né.
Suas palavras nesse texto me fizeram acreditar que valeria a pena lê-lo.
Hum...sem dúvida que para começar 'as intermitências da Morte'.
As Intermitências da Morte é um bálsamo!!! ( com cheiro a baunilha :)
Grande sugestão. Confesso que não sou fã de Saramago, com excepção para esse livro que levanta questões muito pertinentes e nos faz repensar a forma de encarar a vida (e a morte).
Confesso igualmente que também não li o que escreveste mas em relação ao que o zé diz de que "Do pouco que conheço sobre o escritor, a impressão que me fica é de ser integro", em relação às mensagens veiculadas, sem dúvida alguma, mas já em relação ao seu estilo o caso não é esse. A originalidade da pontuação e da sintaxe só foi tomada pelo escritor quando viu as suas obras serem repetidamente recusadas por alegadamente não terem nada de original. Ao contrário de Cesário Verde que se recusava a escrever prosa.
E.O. minha cara, eu já ouvi muita mas muita coisa sobre Saramago mas essa ainda não tinha escutado. Sobretudo porque ele chegou a ser acusado até de ter lobbies.
Ma não confundamos as coisas, Saramago nunca afirmou que era totalmente original, até porque seria falso, mas sim que a sua narrativa era única. E é. A pontuação de Saramago só é ininteligível para quem nunca fez um esforço para o ler. Que desgostem dele, já o afirmei, está correcto, ainda bem que há uma pluralidade de vontades e de gostos mas que afirmem que o homem não sabe pontuar ou que a escrita dele não é única, p.f., tenham dó que essa não pega. Eu até devo dizer que peguei em saramago há anos precisamenete para saber se ele pontuava ou não. Ele pontua, apenas subverte as regras da pontuação, meus caros e isto já começa a ser ridículo de discutir pois é sempre a mesma acusação, teoria da literatura e deparamo-nos com James Joyce, Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, os dois primeiros subverteram as regras da pontuação das quais Saramago se considera seguidor, os dois últimos reescreveram o português de forma a dar, através de neologismos, novos contributos à literatura.
Cesário Verde é uma enorme influência em Saramago como é óbvio mas Saramago é pior escritor por conscientemente querer ser diferente dos outros escritores? ou mais é ele pior escritor por conscientemente subverter as regras da escrita? Não implica isso que o leitor conheça as regras para melhor o ler? mas basta de falsidades, ele pontua, e até tem uma forma bastante evidente de pontuar.
Manual de pontuação de Saramago.
1. Eliminação do ponto e vírgula e do travessão na mudança do discurso indirecto para o discurso directo.
2. introdução da vírgula e Máiusculas para indicar que se passou de discurso indirecto para discurso directo.
Chega até a ser frustrantemente básico, ainda mais quando o acusam de não pontuar. O Saramago escreve num estilo predominantemente oral, é só isso e nada mais.
Como Saramago diz, quer que a pontuação faça com que as frases ressoem na cabeça dos leitores. E às vezes isso chega a acontecer... pelo menos a mim. E também acho fantástico na maior parte dos romances, Saramago conseguir partir de uma premissa inverosímil e ser capaz de construir um enredo perfeito em termos de verosimilhança. É que, apesar dos milénios, o Aristóteles ainda tem alguma razão neste ponto...
Ei! Já vi que te toquei num ponto fraco pois subverteste tudo o que eu disse. Não o acusei de falta de originalidade nem lhe atribui originalidade (a qualificação de "original" tem muito que se lhe diga e não me vou debruçar sobre ela agora). Também não disse nada acerca dele saber ou não pontuar. Literatura é exactamente a subversão das regras gramáticas e a liberdade de expressão através da língua e da linguagem.
Fiz um comentário a um comentário.
Pessoalmente, não aprecio a forma de escrita do autor (a não ser no caso das "Intermitências da Morte"). Mas não é por isso que deixo de lhe reconhecer qualidades enquanto escritor...
Tem lá calma, rapaz...
e já reparaste (eu só notei agora) q até tenho 2 obras de saramago referenciadas no meu blogue? hum? para quem diz q não gosta até que nem sou muito ... má.
boa noite e boa semana :)
E.O. não te estava a atacar. Mas quando escreves: "A originalidade da pontuação e da sintaxe só foi tomada pelo escritor quando viu as suas obras serem repetidamente recusadas por alegadamente não terem nada de original." eu digo, até pode ser verdade, desconheço a sua veracidade pois foi tanta coisa dita sobre ele que muito me espanta alguma ser verdade. Porém, isso quanto a mim não é de todo fundamental para criticar Saramago. Já o teu último comentário é muito acertado e concordo com ele pois é justo: "Pessoalmente, não aprecio a forma de escrita do autor" isto sim é legítimo. Tal como é legítimo detestar o homem por outras razões quaisquer, eu próprio, apesar de gostar normalmente das narrativas pela mesma razão que R afirma acima, tenho uma visão muito crítica das suas ideias. Sou um leitor e discordo de muitas das suas ideias e isso não altera em nada o meu respeito. Também discordo gravemente com Sade nas suas conclusões mas que ele era um excelente escritor e filósofo era.
Mas, atenção não te estava, ou a alguém, a maltratar apenas a deixar patente o meu desagrado pelas frequentes acusações de "não-pontuação" quando é óbvio que ele pontua. Só isso minha cara. :)
Beijos e Boa Semana.
eu sei que não foi um ataque e não acusei ninguém de me maltratar.
don't worry (not going anywhere).
estamos esclarecidos. ;)
e.o.
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