Ondjaki,em Nós Choramos pelo Cão Tinhoso, Os Da Minha Rua, editorial caminho, 2007.
As ruas são todas iguais, diferem na forma e nos espectros que as percorrem. Entre uma rua e outra por vezes pode haver a simples diferença da lembrança.
Devia ter seis anos quando recebi a primeira lição válida para a vida prática de que me recordo: Ou dava ou levava, ou ambos.
Cresci numa zona a que muitos, por falta de imaginação e compreensão, gostam de chamar «problemática» - como se todas as zonas não o fossem de um modo ou outro. De qualquer maneira essa lição antes de a aprender na rua aprendi-a com a minha mãe, estás na escola para estudar, disse, mas se te quiserem bater enquanto houver mãos, pés, cabeça e pedras não te deixas bater, ouviste? Ouvi e bem mãe. Ainda hoje me recordo e agradeço. No ensino primário a coisa até foi fácil, era tudo uma tribo, a maioria já conhecia pois crescêramos juntos e outros já tinha visto na minha rua ou bairro, tal como as miúdas, assim a certa altura sem saber bem como ou porquê éramos todos meio irmanados quase culto obsceno e obscuro.
Depois veio o que chamam ensino básico (que na realidade deveria ser o secundário) cuja única coisa básica que ensinaram era o que já sabíamos: ou dávamos ou levávamos - ou ambos. Mas aí as tribos acentuaram-se, ou melhor dizendo, aumentaram. Eram os da minha rua e bairro, os do bairro dos pescadores (cuja fama ultrapassava o proveito mas impunha medo, medo e não respeito e era isso que importava) os de Vialonga - a periferia de uma grande cidade é o foco mais vicioso e viciado. Os de Vialonga eram particularmente perigosos sabíamo-lo bem. E sabíamo-lo bem porque era o que nos diziam o que equivale a afirmar que não sabíamos era nada. É verdade que a maioria deles era bem maior que nós, nos dois primeiros anos julgo que terei acreditado que eles ou comiam mais e melhor que nós ou então não eram gente como nós mas gigantes duma terra desconhecida que tinha uma via só e era longa. Mais tarde soube que nem uma nem outra, eram é mais velhos, repetentes de 13 ou 14 anos com miúdos de 10 ou 11 perdidos como nós a aplicar a única lei que sabíamos: a da selva. Escusado será dizer que levei e dei e muitas vezes ambos.
Tinha medo, aí isso é que tinha, mas que podia eu fazer? Certa vez, três matulões mbumbu apanharam-me sozinho à saída da escola para me roubar, ali era fácil ninguém te abordava para te pedir indicações, pelo menos três manos daqueles não o fariam, eu estava acagaçado mas não arredei pé e se mostrei medo não dei conta - e eles também não pois gosto de crer que três contra um é medo - um deles para provar de que lado estava a força diz para um dos comparsas, prega-lhe um murro caralho! aí vi que estava fodido, não era nem tramado nem lixado era fodido mesmo. Então o maior dos mbumbus virou-se para mim e pregou-me um estalo de mão cheia que me apanhou toda a face do queixo às orelhas (ocorreu-me que ele devia levar porrada muitas vezes também pois se ele quisesse tinha-me enfiado um murro nas trombas, mas não o fez, sabia bem que o orgulho dói mais que a dor). Não chorei, não consegui chorar, olhei-os nos olhos e pensei sinceramente que estava fodido. Como não tinha muito dinheiro na carteira (era pequeno mas não parvo pelo menos a maioria das vezes) escondera a nota de quinhentos escudos nas meias, roubaram-me os cadernos vazios e novos deixando os restantes - é o valor do trabalho e educação se calhar. E foram-se embora satisfeitos sem mais. Aí, olhei para os que observando a cena se mantiveram impávidos, os que me vieram perguntar se estava bem, agarrei nas minhas tralhas restantes (que agora eram uma mala quase vazia e um casaco que estava no chão) passei por eles e contive as lágrimas pelo caminho todo até casa. Depois chorei desaforadamente. Era o medo e o orgulho a sair. Que podia eu fazer? É que não era só no oitavo ano que era proibido chorar em frente dos outros rapazes - e raparigas. Como escreveu - e bem - o escritor de 'quantas madrugadas tem a noite'.
Só podia haver heróis! os outros por debaixo das roupas eram o Hulk e o Superhomem ou a mulher-maravilha.
Nas versões dos outros, que eu escutava, um só tinha chegado para cinco e até tinha aviado pelo meio um polícia para ele aprender a não se meter onde não era chamado. E ainda hoje não muda nada quanto a isso pois quando contam as suas histórias fica a impressão que só eu é que não era sobre-humano e com poderes mágicos ou sobrenaturais.
A gente ouve as histórias deles e só os pretos é que roubam, só os ciganos é que aldrabam, só as brasileiras é que fornicam os homens dos outros, só os indianos é que vendem rosas nas ruas e os árabes
usam terrorismo, só os chineses é que têm lojas, só os de leste é que bebem vodka, os outros são sempre uma merda mas quem anda na merda somos nós. Santos e couraçados de perfeição. A segunda lição que aprendi foi: aquilo que parece ser raramente o é. Ficção para pobre e rico ver, portanto ou dás e levas - ou ambos. Porém, mais que isso, aprendi isto: abre a pestana chavalo para a próxima saca do sabre de luz que roubaste ao Darth Vader depois de lhe aviares uns murraços nos cornos e dizima-os a todos só com o olhar.
14 comments:
Hum... acho que me convenceste: vou comprar o livro... :)
Henrik,
Essa é a primeira vez que te leio. E o sabor da leitura veio acompanhado de algo que é delicioso para mim...a prosódia lusitana. Mas tenho cá comigo um pensamento e uma indagação: não somos prá sempre miúdos?
Volto te ler. bjs. Veronica
É Verônica que te escreve novamente: acabei postando com o login pessoal e não o do meu blog: me visite também. bjs
Henrik,
li com muita atenção esta tua memória que induz a reflexões fulgurantes...a lucidez que te acompanha e deve doer...muito bem escrita.
agradeço a tua visita...vou linkar o teu blogue, pra acesso fácil,
Um abraço
Véu de Maya.
Ai está uma história que me é estranhamente, ou talvez não, familiar. Tive exactamente a mesma experiêcnia de vida, só que sempre levei, sem nunca retribuir, e a vida foi passando e o meu papel de Cristo aumentando. Depois adoptei uma postura verdadeiramente execrável, com laívos de satanismo e neo fascismo e os outros, os selvagem, que na sua ignorância imaginavam-me uma criatura das trevas dotada de poderes sobrenaturais, simpatizador de monstros com Adolf e Salazar, começaram a temer-me e a respeitar-me ao ponto de evitarem um simples cruzar na rua ou um olá tá tudo. LOL Chega a ser anedótico... I am the Dark LOL ;)
Ps. Apenas para concluir o meu raciocínio. No meu ghetto não existe outra etnia que não seja a branca. E posso garantir que são mais neandertais do que quaisquer outras. Um susto. No Porto, à excepção de algumas famílias de étnia cigana, existem muito poucas comunidades étnicas a viver nos bairros e o meu não foge a essa regra. É grunho branco, mano... ou primaço, que é mais carinhoso :)
Henrik,
Gracias por visitarme y por tus comentarios, pero no te olvides de Córtazar (mi preferido).
Muy lindo tu blog, te seguiré visitando.
Beijos
me, myself and I, a star mais pós-moderna intégaloática tem um desafiozinho para si lá no nosso spot...
lOL, oh Saulus, Saulus como somos tão parecidos meu amigo. A partir do 9º ano (e com o orgasmo obtido pelos acordes iniciais do Vempire de COF) tornei-me um MIB da zona o meu secundário foi um hilariante processo de aprendizagem de Darwin. Cheguei a ouvir 'bom, tu com esse preto todo e correntes, no mínimo, impões respeito' do mesmo tipo de gente que anos antes não teria problemas em massacrar os ditos 'normais'. Apesar de tudo, este texto é ficcionado, embora tenha de facto muitos elementos que aconteceram de facto. É semi-autobiográfico.
Agradeço os que me visitaram e comentaram pela primeira vez e vou visitar-vos também. Isabel vou tratar disso. Ó 'ladra' não te esqueças do café hã! Beijos.
Espectacular. Apesar de eu ser de uma vila pacata, o excerto do texto fez-me lembrar o meu primeiro dia de aulas no ciclo, onde eram visíveis os grupinhos. Como é claro tive de alinhar num, se não estava fodido.
Como diz Daniel Sampaio in “Tudo o que temos cá dentro”, “a vida é um dilema singelo, ou se é bigorna ou se é martelo”, ou por vezes, como diz a personagem deste excerto, somos ambos.
Um abraço.
ola
gostava de te pedir para ires a www.avanessaguerradesafio.blogspot.com e que votasses na mala da minha irma - claudia cunha.
basta deixar uma mensagem na mala dela.
beijinhos
carla
Verônica...não sei se somos para sempre crianças..acontece que há gente que esquece que um dia o foi. Talvez por essa razão eu considere que Saint-Éxupéry escreveu a obra mais fascinante, do ponto de vista de uma visão da humanidade assente em valores não abstractos e concretos como a amizade, camaradagem e o amor; Porém, foi precisamente ele que alertou para o esquecimento da infância no humano. Quanto a mim, provavelmente terei que admitir que no que diz respeito ao texto que escrevi e a essa pergunta inteligentíssima, pois bem captada, sobre a infância, que sim. De certo modo, e vistas as coisas do ponto de vista do receio somos de facto miúdos.
Muito longe (no tempo e no espaço) das minhas vivências. O que ainda acrescentou mais interesse à leitura deste texto. Denso e a merecer reflexão, além do prazer de o ler!
:)
A tua forma de escrever é cativante e a mensagem que transmites neste texto é forte e obriga a reflexão
voltarei para ler mais
beijinhos
carla
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