Chega a época natalícia, começa o corropio mas não só nas lojas. Corropio de 'boa-fé'. Espalha-se como veneno, televisões carregadas de 'iniciativas' e tudo em prol de um bem-maior,'causas-maiores', telefonemas a sessenta cêntimos mais iva e a felicidade de bolso...não simpatizo. Não com as iniciativas, que levam alguma coisa positiva por caminhos tresmalhados, mas com esta sedenta ferocidade que nos retira o simples condoer com as situações. Mercado de carne humana e depois fica o vazio, o vazio de nada ser honesto neste acto, carregar nuns botoezinhos e aliviar a consciência.
Sempre achei a ética (principalmente a filosófica) fora de sítio. Gosto de boas acções, sim senhor, mas prefiro-as em acto (chamem-me utópico). Tristeza (pessoal) minha que assim terei que concordar com Lipovetski (filósofo regra geral desinteressante - para mim) na análise mas não nas ilações quando fala numa 'ética indolor' e quando afirma: «a media-caridade não culpabiliza, não dá lições de moral(...)misturando o bom humor e os soluços contidos(...)trata-se essencialmente de despertar a simpatia emocional do público pelos deserdados». O crepúsculo do dever, pp. 159, edições Dom Quixote. Para não ter que citar mais (desnecessariamente) a função é fundamentalmente fazer-nos sentir 'o dever cumprido' sem qualquer sofrimento de nossa parte, desligando-nos ao aproximar-nos dos condoídos...e quem não prefere carregar num botão a ter que ir a África ver as crianças em sofrimento 'real', efectivo, sem filtros nem publicidade descompressora de lacrimejos? pois é...a nossa éticazinha de bolso, chamem-me hipócrita mas não simpatizo.
Sempre achei a ética (principalmente a filosófica) fora de sítio. Gosto de boas acções, sim senhor, mas prefiro-as em acto (chamem-me utópico). Tristeza (pessoal) minha que assim terei que concordar com Lipovetski (filósofo regra geral desinteressante - para mim) na análise mas não nas ilações quando fala numa 'ética indolor' e quando afirma: «a media-caridade não culpabiliza, não dá lições de moral(...)misturando o bom humor e os soluços contidos(...)trata-se essencialmente de despertar a simpatia emocional do público pelos deserdados». O crepúsculo do dever, pp. 159, edições Dom Quixote. Para não ter que citar mais (desnecessariamente) a função é fundamentalmente fazer-nos sentir 'o dever cumprido' sem qualquer sofrimento de nossa parte, desligando-nos ao aproximar-nos dos condoídos...e quem não prefere carregar num botão a ter que ir a África ver as crianças em sofrimento 'real', efectivo, sem filtros nem publicidade descompressora de lacrimejos? pois é...a nossa éticazinha de bolso, chamem-me hipócrita mas não simpatizo.
8 comments:
Exactamente!...;)
Chama-se carneirísse aguda crónica... e é feroz! tens razão, mata o verdadeiro espírito de natal...
Não confundir o fenomeno actual, com a necessidade das sociedades preverem momentos de fusão e homogenização, para reviver e ritualizar as relações simbólicas establecidas pelos seus mitos fundadores.
Uma coisa é o que se vivencia, outra, como o fazemos.
E a (des)prepósito...;)
vou deixar-te uma prendinha no sapatinho lá do RZ...
queria eu dizer, de que...;)
a "boa fé" é que é!
o resto é papel de embrulho amarrotado pelo chão junto ao laço desfeito... lixo...;)
bora lá!
até áfrica levar e trazer o princípio da literatura, o fio da lusa aventura e o fim da humana escravatura...;)
deixo-te uma beijoca...
estás crescido, dá gosto ver...;)
Vou fazer como os comentadores dos telejornais e dos programas desportivos, se bem que os políticos também apreciam o rigorosamente nada desta expressão, ou seja, subscrevo totalmente. E o hipócrita não és certamente tu, nem eu, nem as pessoas que se sentem incomodadas pelo natal e pelo pseudo espírito de solidariedade que envolve esta época, e vale o mesmo para os dias que se revestem de um simbolismo especial, como o 1 de Dezembro, dia da luta contra o HIV/SIDA. E que valor têm as criancinhas e os idosos nos restantes dias do ano, muito deles sujeitos a pais absolutamente sinistros, que os fazem para ter mais uns tostões de abono e outras benesses do estado, e outros depositados em armazéns de velhos para que o transtorno de ter que levar com eles seja menor? Nenhum, ninguém quer saber, estão todos muito importados e aborrecidos com o desempenho profissional dos professores e com a morte anunciada da segurança social. E queremos um aumento da natalidade e um alargamento da esperança média de vida para isto? Não vou entrar no departamento africano, asiático e outros, é demasiadamente atroz. Neste caso, imagino a Popota como uma jagunça nas fazendas brasileiras e o Tony Carreira como um porco enriquecido pelo tráfico negreiro... Que mundo triste, que mentira pegada a que nos querem fazer engolir. Quando é que nos põe ao corrente da verdade? E o desemprego em massa que aí vêm (no Reino Unido começa em grande), e a guita que pagamos em impostos que é dada a gatunos que não fizeram outra coisa na vida a não ser roubar, e se eu, ou tu, ou a Lima, por um azar, tivéssemos um problemazito com as contas ou quiçá um cometêssemos um pequeno delito, sem qualquer espécie de interesse? Que sorte teríamos? Que belo é o sentimento do natal.
E ainda nem belisquei o natal propriamente dito que para mim nada mais é que uma obrigação social de estar alegre e contentinho! Coisa irritante...
Bem... nem atiro mais achas para a fogueira... não gosto nada desta época. Quse deprimo. Ponto final.
:))
“Neste mundo e fora dele nada existe melhor que uma boa vontade”, e depois, “age de modo que queiras que a tua máxima se torne numa lei universal”, senhor Henrike conhece? Tenho a certeza que sim, pois é do seu congénere E. Kant in Fundamentação da Metafísica dos costumes.
Segundo Kant uma boa acção deve ser praticada apenas com boa vontade, desinteressada de tudo. No entanto eu também sou da sua opinião, as “boas acções do Natal” sabem a plástico, não são verdadeiras, porque depois da peça acabar, as cortinas baixam e fim do espectáculo.
Assim tomando como minhas as palavras do seu colega Kant, as boas acções não devem ser praticadas “para inglês ver”, pois estão revestidas de falsidade. As boas acções devem ser praticadas a cada momento, assim todo aquele que der num dia um brinquedo excedente a uma criança necessitada, deverá outrora dar outros brinquedos excedentes a outras crianças necessitadas, procurando que essa conduta se torne num valor universal.
Já viu, o Natal podia ser todos os dias, mas infelizmente só é quando o Homem quer.
Abraço.
Pois...infelizmente foi por 'obediência à lei' que se convenceu um povo (neste caso o alemão) a fazer o que fez por alturas do holocausto. Contrariamente à tese popularizada de que é Nietzsche o principal responsável teórico do nazismo sou de opinião que é sobretudo o kantismo que leva a esse desfecho. Há aqui vários problemas para quais um texto num blogue não pode ser resposta, porém uma ética concentrada num ideal de 'humanidade' pode (e já aconteceu) levar a atrocidades para com as pessoas. Por outro lado, esta ética que nos desliga dos mais próximos é igualmente perigosa pois adormece-nos a mente e retira-nos a compaixão pelos seres humanos e não só. Há quem defenda esta perspectiva pois proporciona pelo menos a garantia de algum efeito prático. Não nego ter essa vantagem, mas há que questionar porquê umas causas e não outras? Porquê numa altura e não noutra? Naturalmente tenho resposta para isso, mas não me agrada nada...
Antes no natal k nunca!
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