29/Mai/2009

HIATO

este blogue entrou num HIATO que se prolongará até meados de Julho no mínimo.
voltarei, contudo, e aproveitarei para efectuar mudanças neste espaço.
Obrigado a todos os que vão acompanhando este sítio e como diria o Governador da Califórnia «I'll be back».
Beijos e Abraços a todos.


P.S. S&L vi e comentei e rimando adorei ;)
Saulus don't fear my child big brother is watching you.

16/Abr/2009

Interlúdios II: A Circularidade do Círculo (reloaded)

Sobre a lama revoltado rebolei
numa ânsia desesperante de sentir a terra nos lábios
onde o húmus se torna fértil
e onde as respostas se encontram na ponta de um silêncio

Sob o jugo feroz da luz me calei
pois a escuridão também é necessária ao prazer
infiltrei-me onde nós estávamos
para melhor nos sentir
e encontrei-me rebolado na lama
onde ansiosamente desesperado me revoltava

6/Abr/2009

interlúdios

olho para a sua face carregada de mistério
como quem assiste ao fenómeno imprevisível do amor
a vaga sensação de calor que me percorre
enche-me de coragem
digo disparates como quem diz certezas
sinto o vento deslizar-lhe sobre a pele e observo-a como se não houvesse notado nada mantenho-me em silêncio
ela pergunta: o que tens
respondo
nada
mas aquele nada é um tudo que me envolve em mantos de suavidade
e sinto-me com a presença do universo na minha alma
calo-me
e sob o silêncio mais um sol se põe
levanto então meus olhos de sua pele tingida pelo sol
e digo-lhe tudo o que se pode dizer
observamo-nos em silêncio e sem uma palavra proferimos todos os discursos
anoitece
e na noite
recôndito em meu quarto
peço-lhe um beijo e espero por uma resposta ansioso pelo amanhã

20/Mar/2009

Opiniões, Mr. Zuckerman

Philip Roth, provavelmente o melhor escritor da actualidade, no seu magistral 'A Mancha Humana', tem a seguinte tirada posta na boca de Ernestine, irmã de Coleman Silk, enquanto falava com Nathan Zuckerman após a morte de seu irmão: «No tempo dos meus pais, e até em boa parte no seu e no meu, costumava ser a pessoa que ficava aquém. Agora é a disciplina. É muito difícil ler os clássicos; logo a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender com isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr. Zuckerman, para só haver opiniões.»

Não diria melhor.

18/Mar/2009

Maria & Joseph

Posso dizer que sou religiosa. Sim...fui abençoada. Veio uma alma e penetrou-me, Joseph...não entendes? Fui religada pelo seu cheiro, seu esperma, a sua força bruta, a sua violência...fui esventrada por dentro Joseph, por uma alma...portanto fui tocada pelo divino, 12 anos, Joseph. Veio-me a mestruação e veio-se ele. Mas que interessa isto tudo Joseph? Por que queres ouvir isto? Que interessa se fui fodida pela vida e por ele Joseph? O que te interessa é o céu mesmo que o inferno seja aqui. Que te interessa meu sangue vomitado, Joseph? que significado tem isso para ti? que sabes tu sobre o divino, o que é o divino Joseph? é ser enrabada aos doze anos, ser fornicada como uma cadela aos dez anos? É ser criança-mãe de futuras mães-crianças? Onde está o teu princípio do amor universal enquanto eu engolia seu fálico dom à força bruta, Joseph? Onde estava o teu amor universal enquanto me foderam por trás, pela frente, de lado, regozijo de machos, como tu Joseph! Não entendes pois não? Nunca entenderás. Deus não te abandonou, ele nunca esteve sequer perto de ti.

16/Mar/2009

Lamentável. Lamentável só agora, bastante mais de três meses depois, ter lido esta afirmação enquanto folheava a revista «Os Meus Livros» de Janeiro que, a crer na seriedade da revista, supostamente terá dito Pedro Correia no Diário de Notícias de 29-11-2008: «não é fácil gostar deste autor [José Saramago] profundamente amargo, que tem uma concepção desencantada da natureza humana e demasiadas vezes reduz as personagens a títeres, desenvolvidas apenas para dar credibilidade a uma tese».
Vamos por partes. O Leninismo-Estalinismo de Saramago também não me agrada, embora ainda ache Marx bastante válido para a análise da contemporaneidade, todavia há aqui, segundo me parece, erros dir-se-iam básicos de argumentação. Em primeiro lugar, não gostar de Saramago é legítimo quer seja por ser «profundamente amargo» ou por não se concordar com as suas teses ou por outra razão qualquer, é um critério de gosto pessoal e transmissível.
Porém, argumentar isso não é a mesma coisa que o rejeitar por ter «uma visão desencantada da natureza humana» pois isso já é uma afirmação que entra no domínio da Filosofia. As concepções de Saramago são desencantadas sem dúvida mas altamente sustentadas por uma tese filosófica que encara um duplo movimento dessa dita «natureza», o aparecimento da esperança por um lado e o manifesto fundo negativo que os humanos continuam a propagar. Negar as atrocidades que vemos todos os dias ora veiculadas por jornais (atendendo também às mais recentes tecnologias como o youtube e sucedâneos que permitem uma visualização quase simultânea dos acontecimentos) ou testemunhadas in loco no dia-a-dia se não é um encantamento feérico perigoso então será profundamente autista.
Não gostar dessa visão desencantada de Saramago é argumentar uma coisa, afirmar que ele está errado por seguir essa tese já é outra coisa diferente.
No que me diz respeito, não tenho motivos particulares para considerar a natureza humana como algo nem de profundamente negativo ou positivo. Não creio num conceito abstracto e uno da humanidade e portanto não vejo a humanidade como um todo, isso seria ,em última análise, um engano fácil para castigar uns pelos erros de outros ou por sua vez aclamar outros por gestos de uns.
Para finalizar, muito me espanta que se afirme isto: «[Saramago] reduz as personagens a títeres, desenvolvidas apenas para dar credibilidade a uma tese». Pois bem, chama-se a isso Enredo e costuma haver numa coisa chamada Literatura. A Literatura é precisamente a redução das personagens, ou narradores, a títeres para credibilizar uma tese.
E essa tese tanto pode ser meramente metafórica, lúdica, mero entretenimento, exercício de estilo ou filosofia. Mas a base da literatura fundamenta-se precisamente numa organização de uma narrativa que visa veicular algo. E mesmo os exercícios literários fonéticos como o dadaísmo do início do século passado tinham como objectivo «dar credibilidade a uma tese».
Por isso não se entende bem a afirmação acima transcrita. Argumentação que teria sido muito mais eficaz e justa se tivesse sido em moldes parecidos: «não gosto de Saramago. Discordo das suas teses da sua concepção de humanidade e da forma como os seus livros a veiculam». Isso sim teria sido uma afirmação digna de registo quer eu concorde ou não. E intui-se que seria somente isso que se quereria afirmar.

9/Mar/2009

As Palavras Dos Outros

«sentia dentro do peito um alastrar de sombras.» (J. E. Agualusa)
«se o desespero aumenta não se traduz em palavras.» (Raul Brandão)
«afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza» (R. Brandão)
«creio no sono. Na incapacidade momentânea de continuar, de repousar.» (ondjaki)
«escrever é esquecer. a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.» (F. Pessoa)
«nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. vivemos de palavras, vamos até à cova com palavras.» (R. Brandão)
«tenho sonhado muito. estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos» (F. Pessoa)
«minha força está na solidão. não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. (Clarice Lispector)
«deseja apenas que cesse teu sofrimento milenar (Wilhelm Reich)